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Diagnóstico Econômico do Bambu Nativo do Acre

Atualizado: 3 de Out de 2019

A empresa Conquista Socioambiental realizou estudo em atendimento às demandas da FUNTAC, que há anos fomenta a cadeia produtiva do bambu nativo no estado do Acre. O estudo concluiu que há viabilidade econômica na exploração de carvão vegetal de bambu promovida pela agricultura familiar. Alguns dos principais resultados são apresentados aqui.
Por Camilo T Pedrollo, Biólogo MSc. Botânica

As florestas abertas com bambu do gênero Guadua — “pacales” no Peru e “tabocais” no Acre — são incomuns na Amazônia, mas no sudoeste da bacia cobrem áreas extensas, chegando a 38% da cobertura florestal do Acre(SILVEIRA, 2001). É uma das poucas formações florestais amazônicas reconhecidas facilmente a partir de imagens de satélite. A mancha cobre cerca de 180.000 km², incluindo o oeste do estado do Amazonas, o estado do Acre, o nordeste do Peru e o norte da Bolívia, constituindo-se na maior floresta nativa contínua de bambus no mundo.



Distribuição das Florestas Abertas com bambu do gênero Guadua, no sudoeste da Amazônia. Fonte: Bianchini (2005).

O bambu é um dos mais valiosos ativos ambientais e econômicos do século XXI. Hoje a China é o maior produtor mundial, atendendo a vários setores industriais como a construção civil, indústrias químicas, produção de celulose e fabricação de carvão. O Brasil ainda sofre com a falta de incentivos, a escassez de desenvolvimento tecnológico, infra-estrutura de logística e indústria de beneficiamento próximas às áreas de ocorrência natural de bambu, tendo por isso uma participação quase irrisória no mercado mundial.



Essencialmente, os usos do bambu podem ser classificados nas seguintes categorias:
- Madeira & artesanato
- Geração de energia
- Medicamento
- Alimento
- Serviços ambientais

Por outro lado, segundo relatório da ONU de 2017, o Brasil é o maior produtor de carvão vegetal do mundo: produziu 6,2 milhões de toneladas em 2015, 12% da produção global (FAO, 2017). O carvão vegetal pode ser utilizado como fertilizante para o solo, como combustível para uso residencial em lareiras e churrasqueiras, e para uso industrial, sobretudo na produção do ferro-gusa.




Além dos usos já citados, o carvão vegetal pode ser utilizado para purificação de água, controle de umidade, desodorização de ambientes, preenchimento de edredons, almofadas, travesseiros etc. (SHENXUE, 2004). O seu espectro de utilização aumenta ainda mais quando é submetido ao processo de ativação (TA-CHUNG et al., 2008; HSING et al 2011), dando origem a produtos medicinais e cosméticos.

As florestas plantadas de pinus e eucaliptos se destacam no mercado da biomassa vegetal destinada a produção energética. Segundo a ABRAF (2013), no ano de 2013 foram plantadas cerca de 6,6 milhões de hectares dessas espécies. Segundo AMS (2008), a origem do carvão vegetal consumido no em 2006 Brasil foi 49% proveniente de origem nativa e 51% proveniente de florestas plantadas (essencialmente eucalipto).

Considerando o contexto amazônico, especialmente no tocante a abundância de recurso nativo e de alta capacidade de regeneração dos bambuzais do Acre, existe um forte indicativo de que o manejo para fins de produção de carvão seja a forma mais rentável para iniciar o seu aproveitamento.



As etapas do experimento de campo para validação da confecção artesanal de carvão vegetal de bambu em escala comercial: 1) extração na mata; 2) pesagem dos colmos para estimativa de rendimento; 3) preparação do forno de tambor; 4) queima.

Com uso para carvão, não há necessidade de seleção meticulosa dos colmos, aumentando o rendimento do dia de trabalho e o volume de matéria prima coletada. Com essa atividade inicial, dá-se espaço para o crescimento mais vigoroso e controlado de varas de maior espessura e qualidade para outros fins que exijam estas características, como a construção civil.

Assim, buscando identificar alternativas para minimização dos problemas de exploração indevida de recursos madeireiros, bem como mitigar o desuso do bambu nativo no Acre, o estudo realizado pela Conquista investigou a hipótese de uso do bambu nativo para produção de carvão vegetal em larga escala, com ênfase na viabilidade econômica para implementação de empreendimentos da agricultura familiar.

A análise financeira, supondo um investimento inicial de R$ 9.000, demonstra um resultado positivo para produção e comercialização de carvão ativado para fins cosméticos, expresso no VPL (valor presente líquido) de R$ 56 mil em 2 anos. Portanto, para o produtor rural interessado em aderir ao corte e processamento de carvão ativado de bambu, o retorno do investimento é percentualmente alto (500%) devido ao montante do investimento inicial. A renda líquida mensal a ser gerada é de cerca de R$ 2.850, considerando duas pessoas trabalhando 20 dias por mês.



Equipe na primeira missão de campo para o diagnóstico econômico do bambu nativo, em Porto Acre (AC).

Conclui-se que é possível desenvolver uma nova cadeia produtiva inclusiva através da implementação de tecnologias sociais com o desenvolvimento de uma forma de queima artesanal, em que se possa utilizar recursos disponíveis localmente, com baixo custo de processamento, aumentando o aproveitamento econômico dos bambuzais nativos do Acre.


Contratante: Fundação de Tecnologia do Estado do Acre — FUNTAC

Financiamento: PDSA Fase II / BID

Agradecimentos:

À toda equipe da Conquista envolvida no presente estudo: Kaline Rossi do Nascimento, Daniel Nascimento, Victor Melo e Fernando Gheiner.


Referências:

ABRAF (Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas). Anuário Estatístico da ABRAF: ano base 2012. Brasília, 2013.


AMS — Associação Mineira de Silvicultura. Origem natural do carvão vegetal consumido no Brasil. 2008. Disponível em: http://www.silviminas.com.br. Acesso em: abril de 2019.


FAO. The charcoal transition: greening the charcoal value chain to mitigate climate change and improve local livelihoods. J. van Dam. Rome, Food and Agriculture Organization of the United Nations. 2017.


HSING, T, Y.; DE PAULA, N. F. Produção e caracterização de carvão ativado de quatro espécies de bambu. Ciência & Tecnologia: FATEC-JB, Jaboticabal, v.3, 2011.


INTERNATIONAL NETWORK FOR BAMBOO AND RATTAN — INBAR. International trade of bamboo and rattan 2012. INBAR, Beijing, 60p. 2014.


SILVEIRA, M. A Floresta Aberta com Bambu no Sudoeste da Amazônia: Padrões e Processos em Múltiplas Escalas. Tese de Doutorado — Universidade de Brasília. 2001.


SHENXUE, J. Training manual of bamboo charcoal for producers and consumers. Nanjing Forestry University, 54p. 2004.


TA-CHUNG, A.;CHIN-NA, L.; CHANG-HSUAN, C.; CHAO-HUEI, L.; PEI-TI, H. Thermal retention performance and gas removal effect of bamboo charcoal/pet blended fibers. Polymer-Plastics Technology and Engineering, v. 47, p. 895–901, 2008.

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